São Paulo e o desafio dos ônibus elétricos

Em outubro de 2022, a SPTrans, responsável por gerenciar o sistema de transporte municipal de São Paulo, proibia a inclusão de ônibus 0 km movidos a óleo diesel em suas linhas.

A medida vinha em conformidade às promessas de Ricardo Nunes. O prefeito reforçou em diversas oportunidades a meta de contar com pelo menos 2,6 mil ônibus elétricos até o fim de 2024, o que representaria cerca de 20% da frota municipal.

Faltando menos de 1 ano para o prazo, será que a capital conseguirá bater a meta?

Ônibus elétrico 100% brasileiro
Foto: Eletra – Ônibus Elétricos SP

Primeiro… Por quê ônibus elétricos?

Todos os anos acontece a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Em novembro de 2021, na 26ª edição (COP26), o Brasil se comprometeu a realizar várias mudanças visando reduzir o impacto ambiental do país.

O objetivo é atingir a neutralidade climática. Para isso, o Ministério do Meio Ambiente propôs diversas medidas, que são revisadas anualmente. O Brasil precisa reduzir em 50% a emissão de carbono na atmosfera até 2028, e em 100% até 2038.

A mudança na frota de ônibus seria um importante passo para alcançarmos a meta e servirmos como exemplo para outras capitais do país, no entanto, é cheia de desafios.

Alto custo

A produção de ônibus elétricos é cara. O custo estimado para substituir 20% da frota por EVs (eletric vehicles – veículos elétricos) passa de R$ 8 bilhões. Felizmente a prefeitura já conseguiu aprovar financiamentos e garantir o valor será arrecadado da seguinte forma:

Financiamentos – R$ 5,75 bilhões:

  • R$ 2,5 bilhões do BNDS (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)
  • 2,5 bilhões do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e do Banco Mundial
  • R$ 250 milhões do BB (Banco do Brasil)
  • R$ 500 milhões da CEF (Caixa Econômica Federal)

Contrapartida da Prefeitura:

  • R$ 165 milhões

Empresas de ônibus:

  • R$ 2 bilhões, mas as viações receberão subsídios maiores pelos ônibus elétricos

Apesar dos altos custos de implementação, o veículo elétrico possui uma autonomia maior, gerando economia a longo prazo.

“A cada um real que usaremos para trocar o diesel pelo elétrico, ganharemos dois [reais] nos próximos 15 anos, ou seja, teremos um ganho financeiro e um ganho ambiental de saúde e sustentabilidade muito importante”, concluiu o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes.

Frota atual

A meta de ônibus para o fim de 2023 era de 600 ônibus elétricos.

Em setembro, a capital paulista recebeu 50 novos ônibus elétricos, no entanto, isso foi o suficiente para aumentar a frota para 69 ônibus. Se somarmos essa quantidade aos trólebus, o número chega a cerca de 270 ônibus, ou seja, 2% da frota ou 10% da meta de Ricardo Nunes.

Porém, o prefeito já manifestou anteriormente que é questão de tempo para a operação dos trólebus ser completamente desativada. Estudos mostram que sua circulação afeta negativamente o trânsito e a manutenção das instalações aéreas custam em torno de R$ 30 milhões por ano.

Se levarmos em consideração apenas os novos modelos elétricos, então o número de veículos representa 2,7% da meta.

Infraestrutura

Veículos elétricos exigem investimentos em infraestrutura.

As concessionárias já firmaram contrato com a Enel X, braço de mobilidade da Enel, para ter os veículos e infraestrutura de recarga nas garagens, no entanto, a situação é tratada com preocupação.

A prefeitura afirma que possuía encomenda de 600 ônibus no ano passado, porém não foram entregues a tempo.

“Não tinha ônibus disponível no mercado para aquisição, agora as indústrias se organizaram.”, afirmou o prefeito.

De acordo com a prefeitura, as concessionárias afirmam ter outras 152 unidades prontas, mas que aguardam a instalação de estrutura para começar a circular.

A Enel X, por sua vez, informou que entregou a infraestrutura para a leva de 50 ônibus entregues no ano passado. E que dispõe de carregadores para abastecer os próximos veículos que serão incorporados em breve à frota municipal.

Meta x Tempo restante

Especialistas em desenvolvimento urbano veem com preocupação a estrutura da cidade e a realização das promessas de Ricardo Nunes.

Confira a opinião de Hélio Wicher:
“A estrutura da prefeitura da cidade hoje para receber os ônibus elétricos é basicamente inexistente. Há um compromisso e algumas parcerias com fornecedores de energia elétrica, empresas fornecedoras de energia para a instalação desses equipamentos, mas hoje ainda é ínfima em relação ao que seria necessário para atingir (…) Infelizmente a gente enxerga a meta de 2.400 ou 2.600 [ônibus elétricos] como praticamente impossível de eles atingirem em 2024. E a meta de 2028 vai se tornando então mais difícil ainda.”

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